“Para começar”, neste texto abordo os níveis iniciais da relação dos primeiros contatos com os educandos.
PARA COMEÇAR
“Em cada signo dorme este monstro: o estereótipo”
= Roland Barthes=
AUTOR: Juarez Moreira da Silva Junior
Universidade Católica de Brasília - UCB Virtual
Correio eletrônico: juarezs@ucb.br
UCB Virtual
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No dia 11 de agosto de 2000 iniciei a aula da disciplina “Fundamentos
da Educação” para o curso de Educação Física em dois turnos: matutino e
noturno. O acontecimento se deu na Faculdade Salesiana de Vitória-ES
(Unisales).
Como é de praxe fui apresentado à turma. Pela manhã a apresentação
ficou a cargo do Vice-diretor Acadêmico, e à noite pelo Coordenador do Curso.
Após relatar a minha trajetória acadêmica propus aos alunos que eles se
apresentassem. Ouvi de uníssono a expressão “DE NOVO”. Assim, confirmei a
minha hipótese: os alunos já estavam “cansados” de falar de si mesmos.
Para surpresa geral explanei que a apresentação seria por meio de
uma dinâmica de grupo intitulada “A Teia da Amizade”1, na qual um aluno
ficará encarregado de fazer a apresentação do colega. O primeiro participante
fica com a dupla tarefa: apresentar a si mesmo e o colega. A escolha se deu de
forma livre.
Ao preparar a forma de apresentação da turma, procurei “fugir” da
trivialidade temendo um esvaziamento da atividade de comunicação.
1 Esta dinâmica consiste em: 1) dispor os participantes em círculo; 2) indicar um aluno para iniciar. Este
toma nas mãos um novelo (rolo) de cordão ou lã. Em seguida, prende a ponta do cordão em um dos dedos
de sua mão e 3) pede para as pessoas prestarem atenção na apresentação que fará de si mesmo. Após se
apresentar, este deverá escolher um colega e irá apresentá-lo para o grupo, jogando em seguida o novelo
para ele. 4) Esta pessoa apanha o novelo, confirma ou não as informações dadas a seu respeito e, após
enrola a linha em um dos dedos e apresenta um outro colega do grupo. 5) Assim, se dará sucessivamente
até que todos do grupo sejam apresentados. Como cada um atirou o novelo adiante, no final haverá no
interior do círculo uma teia de fios que os unem uns aos outros. Adaptado do livro: Como fazer
dinâmicas: para catequese, homilias, encontros e palestras. Dos autores José Eduardo BITTENCOURT
& Sérgio Geremias de SOUZA, publicado pela AM edições em São Paulo no ano de 1994 em sua 3ª
edição.
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Objetivando aguçar a imaginação dos alunos, fui buscar nos livros de dinâmica
de grupo uma inspiração benfazeja.
A opção por esta forma de apresentação (um apresenta o outro) foi para
evitar que os alunos falassem de si mesmo. Quando isso ocorre, é sempre de
maneira precisa, informativa e objetiva. Dessa forma, muitas outras
manifestações da vida se ocultam silenciosamente nos recôndidos da
existência humana. Objetivando explorar os cantos e encantos da imaginação
do alunado, a dinâmica se deu sob a forma de apresentação do outro, que
muitas vezes se passa despercebido pelos nossos sentidos.
Pude observar que ao escolher o colega que seria apresentado, os
alunos procuravam “florir” a apresentação dando qualidades às pessoas,
algumas vezes de forma pitoresca, outras de forma concisa e séria, outras de
forma sisuda, dependendo do grau de intimidade.
Quando não se conheciam, e isso aconteceu várias vezes, os próprios
alunos se apresentavam. Cheguei a questionar a turma porque não se
conheciam, já que eles estavam juntos há duas semanas. Um silêncio
ensurdecedor tomou conta do ambiente. Essa situação me “transportou” para o
livro do Adorno (1993)2 “A mínima morália” e ao chegar em casa reli o aforismo
90: “Instituição para surdos-mudos”. Para Adorno (1993, p. 120) os “alunos
se emudecem cada vez mais. Eles são capazes de fazer conferências, suas
frases qualificam-nos (sic) para o microfone diante do qual se vêem colocados
como representantes da média das pessoas, mas a capacidade de falarem
uns com os outros se atrofia (gm). Pois esta pressupõe ao mesmo tempo
experiências dignas de serem comunicadas, liberdade de expressão,
independência e, ao mesmo tempo, relacionamento. No sistema que tudo
abrange, a conversação transforma-se em ventriloquismo”.
Trocando em miúdos: o que o aforismo nos transmite é que os
indivíduos falam para todos, mas não falam com todos.
Relatei anteriormente que quando os alunos não se conheciam, a
apresentação ficava a cargo deles próprios. Mesmo falando de si, percebi
claramente que alguns, sensibilizados e envolvidos pela dinâmica adotada,
deixavam transparecer os seus mais íntimos sentimentos em relação à nova
experiência que estava se processando. Alguns alunos chegaram a solicitar
aos companheiros compreensão para as possíveis falhas e/ou incompreensão
para com os assuntos a serem abordados.
2 ADORNO, T. W. Mínima Morália: reflexões a partir da vida danificada. Tradução de Luiz Eduardo
Bicca. 2. ed. São Paulo: Ática S. A 216 p.
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Enquanto educador sei que é complicado para as pessoas se
“desnudarem” diante dos outros. Dizer ao outro quem realmente somos é uma
tomada de posição difícil, já que os pares podem não gostar de quem somos e
isto pode nos afastar do grupo. Isso é reflexo da nossa sociedade, pois ela
própria considera as diferenças reais ou imaginárias como marca ignominiosa.
Adorno (1993, p. 91) no aforismo 68 “As pessoas estão te olhando”, retrata
com maestria esta questão. Para o autor na “sociedade repressiva, o próprio
conceito de homem é uma paródia da imagem e semelhança. Faz parte do
mecanismo de ‘projeção pática’, que os detentores do poder só percebam
como humano o que é sua própria imagem refletida, ao invés de refletirem o
humano como o que é diferente”.
Na verdade é muito mais fácil lidar com o igual. O que viria a calhar bem
para a sociedade é que todos os indivíduos fossem iguais uns aos outros.
Entretanto, não existe nada mais desumano que tratar os desiguais de forma
igual, porque cada um é único na sua imediatez biopsicosocial. É possível ser
diferente sem ter medo.
Bem, voltemos ao “desnudamento”. Ao meu ver essa sinceridade torna
as relações interpessoais mais viscerais. John Ponwel no livro “Porque tenho
medo de lhe dizer quem sou?” retrata que existem cinco níveis de
comunicação. O quinto nível e o mais convencional/usual de todos são as
conversas de “clichês”, ou seja, é o famoso “tudo bem”; como vai você?” Óbvio
é que quem pergunta não quer saber como vão as pessoas, mas às vezes
aparece alguém e diz: comigo vai tudo mal! Pronto, depois disso o interlocutor
tinha que parar e ouvir. Foi aí que surgiu o famoso “oi” que não deixa espaço
para esta interpretação. Segundo o psicólogo Olavo Feijó3, o “oi” revolucionou
a comunicação.
O quarto nível é as famosas conversas de salão, onde as pessoas falam
de outras pessoas e não delas próprias. No terceiro nível os indivíduos falam
sobre coisas, mas não emitem opinião própria. No segundo nível, eles emitem
opinião própria, mas mudam rapidamente quando o outro discorda deles, com
isso resguardam a conversa e a “amizade”, já que o interlocutor pode
interpretá-lo mal.
No primeiro nível as pessoas têm uma relação visceral com as outras, se
envolvem e se deixam envolver. Estão abertas para convencer e serem
convencidas. Isto é o que faz a diferença na comunica-ação humana.
3 Olavo Feijó foi o meu professor de Psicologia no Curso de Especialização em Performance do
Treinamento Desportivo, cursado na UGF em 1993. O autor tem vários livros publicados na área de
Psicologia dos Esportes.
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Ainda a esse respeito, vale a pena lembrar Santo Agostinho: “prefiro os
que me criticam aos que me adulam, porque os que me criticam me corrigem e
os que me adulam me corrompem”. Belas palavras que tem guiado o meu
sentir-viver. Lembro a todos que criticar não é falar mal, mas estabelecer
critérios para colocar o objeto em crise. E crise significa alteração, mudança.
Precisamos de mudança porque o ser humano não é uma realidade acabada,
mas sim um ser em trânsito, em constante mutação. Substancialmente somos
outro a cada momento.
A mensagem final que deixo nesta crônica é que se atravessarmos a
vida achando que a nossa é a melhor maneira de agir no mundo vamos
desperdiçar as novas chances que aparecem diariamente. Brindemos à
diferença e às mudanças.
Há-braços.